A Música tem sido tema de debate filosófico desde os gregos
antigos até aos dias de hoje. Era uma parte importante da cultura grega antiga,
desde cerimónias religiosas, poesia e teatro, até usos militares e educação. A música, para os filósofos gregos, fazia parte da sua metafísica; uma parte de como
pensavam que o universo estava estruturado. Eles deixaram um registo
substancial das suas ideias sobre música, muitas das quais ainda fazem parte da
nossa cultura de hoje. Estes filósofos escreveram numa série de estilos, desde
livros sobre as práticas de fazer e compreender a música (o que hoje chamamos
de teoria da música), a livros sobre a natureza do universo e os efeitos da
música (o que hoje chamamos de metafísica, ou apenas filosofia). Pensava-se que
a música poderia afetar o ethos de uma pessoa (comportamento ou ética) porque era governada pelas mesmas leis que o universo e assim poderia influenciar outros
reinos, tanto físicos como invisíveis.
Esta crença de que a Música pode influenciar o
comportamento é primeiro apresentada por Platão na sua República, um tratado
no qual ele descreve a maneira de criar um estado ideal. Neste importante
tratado, Platão declara que o poder que a música tem para influenciar o
comportamento de uma pessoa é tão forte que os líderes da república só devem
ser autorizados a ouvir certos tipos de música, os quais aumentarão a sua
coragem e honestidade. A música que pode perturbar a ordem social deve ser
banida da república e a cada estrato da sociedade são permitidos diferentes
tipos de música, a fim de encorajar certos aspetos do seu caráter. Para Platão,
a música tinha o poder de despertar certos estados emocionais em humanos. Tinha
esse poder porque a música em si era uma imitação dos sons que fazemos nesses
estados emocionais.
Aristóteles, depois dele, tinha um conceito semelhante do poder musical para influenciar os nossos estados emocionais. Mas, para
Aristóteles, era assim porque a música representava essas emoções em si mesmas,
não apenas as maneiras pelas quais expressamos essas emoções. Uma pessoa
ouviria música e o seu estado emocional alinhar-se-ia por simpatia com o da
música.
À medida que a nossa compreensão do mundo e do lugar da
música nele evoluiu, os argumentos filosóficos relativos à música também se
transformaram. Ao longo da Idade Média, perdeu-se o foco filosófico e a Música
era considerada apenas um meio para um fim, na ajuda ao louvor e adoração de
Deus. Quando a música reapareceu como um tópico filosófico, no final do
Renascimento, havia muitos conceitos semelhantes às filosofias gregas
primitivas, menos o envolvimento estrutural no universo. A partir desse
momento, uma grande revolução nos nossos pensamentos sobre o propósito e o
funcionamento da música ocorreu a cada duzentos anos ou mais.
Durante a era barroca, acreditava-se que as emoções eram
sentidas como resultado do movimento de certos espíritos no corpo. A música que
correspondia aos movimentos dos espíritos para uma emoção particular poderia
fazer com que os espíritos do ouvinte se movessem da mesma forma, fazendo com
que essa emoção fosse sentida. Certos gestos melódicos ou traços rítmicos
tornaram-se formas padrão de comunicar cada emoção. Acreditava-se que a música
era uma ferramenta útil e ouvir o equilíbrio certo das emoções na música era
pensado para manter a alma em equilíbrio e encorajar a saúde mental e física.
A expressão do estado emocional interior do artista só
passou a ser o objetivo da música a partir do século XIX, com o Romantismo.
Com a publicação de Arthur Schopenhauer (1788-1860), «O
mundo como vontade e ideia», a importância da música entre as artes mudou
radicalmente. Schopenhauer postulou que o universo era, em última análise, uma Vontade. Ele considerava a música a arte proeminente porque poderia representar
mais de perto essa Vontade. Ao fazer isso, pode, obviamente, representar outras
coisas, como emoções humanas. Isto difere das conceções platónicas e
barrocas anteriores de emoção na música, em que esta imitava essas emoções,
enquanto para Schopenhauer ela representa essas emoções. Além disso, embora a
música possa expressar as emoções das quais é representativa, ela não faz
necessariamente com que o ouvinte sinta essas emoções.
As teorias de Schopenhauer fornecem suporte filosófico para
uma tendência que já se estava a tornar bastante estabelecida na época da
publicação do seu livro.
No final do século XIX, o escritor e crítico musical Eduard
Hanslick (1825-1904) argumentou que o propósito da música não é fazer-nos
sentir uma certa emoção e também não é seu propósito representar emoções. Para
Hanslick, a música é o propósito da música, a sua forma é o seu conteúdo e não
emoções. Para ser claro, Hanslick não descartou a possibilidade de que a música
pudesse despertar certas emoções em certas pessoas, mas sentiu que tal
ocorrência não era o propósito da música e muitas vezes poderia ser explicada
como resultado de outras coisas.
Filosofar sobre música não parou por aí, é claro. Na
verdade, em meados do século XX, o interesse pelo tópico ressurgiu
consideravelmente. O tema atualmente é amplo, dada a explosão de géneros
musicais e a facilidade com que a música existe no nosso quotidiano. Os
filósofos ainda estão a tentar explicar a natureza do conteúdo emocional da
música e de que maneira ele pode afetar-nos. As respostas que eles constroem
podem ter um impacto considerável em como entendemos o significado da música nas
nossas vidas, na verdade, em como entendemos a música.
Texto baseado no site https://musiccrashcourses.com/lessons/philosophy.html
Pela minha parte, como compositor e produtor musical, situo-me mais perto das ideias de Hanslick. Quando componho, não tenho como objetivo consciente exprimir esta ou aquela emoção, este ou aquele estado de alma. Vejo a música mais como uma envolvência, um estabelecer de paisagens sonoras que te enlevam e transportam através delas.
Deixo-vos aqui uma faixa do meu disco Nostalgia, como exemplo. De certeza que, a inspirar emoções no ouvinte, cada um as vivenciará de acordo com a sua personalidade, mas também com o seu passado, componente muito importante para se analisar o presente.
Como vês tu toda esta questão? O que é para ti a música e como te relacionas com ela? Deixa o teu sentir nos
comentários. Obrigado.
Que análise maravilhosa sobre a filosofia da música. Aprendi imenso e é interessante como a filosofia da música se expressa conforme o contexto sócio - cultural da época.
ResponderEliminarPara mim, a música é uma ferramenta muito poderosa para atingir estados emocionais, mentais e intuitivos que me interessem no momento.
Felizmente, nos dias de hoje temos acesso a inúmeros tipos de música e podemos escolher.
Sim, o nosso passado influencia muito as nossas escolhas para as músicas que ouvimos no presente e, já sabes, que as minhas música preferidas são sempre as tuas.
Consegues fazer-me viajar por estados de alma tão diversos que nunca me canso de ouvir/sentir/vivenciar a tua criatividade e genialidade.
Obrigada pir teres aceite este desafio de escrever no nosso Blog 🙏 És um gigante 💖💖💖
D
Obrigado pelas tuas palavras, carinho e apoio ao longo das nossas vidas. Sabes que o teu amor está refletido na minha música, não sabes?
EliminarClaro que sei eheheheh Love you 💖💖
EliminarMagnífica publicação, Zé Paulo! Muito interessante! Obrigada! :) Para mim a música faz-me encontrar sentimentos que fazem parte de mim mas que não compreendo de outra forma. Quando oiço música (e dependendo da música que é) sentimentos, memórias, sensações, pessoas, ambientes, viagens, passam pelo meu corpo, e transformo-me um pouco. Nessa transformação encontro qualquer coisa de especial e guardo-a, nessa música, comigo.
ResponderEliminarMais uma vez, obrigada! <3
Obrigado pelo comentário Marta. A música também é um despertar.
EliminarQuerido Zé Paulo, adorei este texto, muito rico. Obrigada! Para mim a música é beleza, emoção, ambiente, depende do seu estilo e adequação. Há músicas que me fazem refletir, outras que me emocionam ou despertam outras emoções, no meu caso levo para alguns estados emocionais. Obrigada também pela partilha do álbum. Muito sucesso.🙏💖
ResponderEliminarObrigado BáSi. Tens mais música minha no YouTube. Espero que ela te enleve.
EliminarZé Paulo, gostei muito de ler sobre todas estas ideias, que interessante!
ResponderEliminarGosto de ouvir diferentes tipos de música porque o meu estado de espírito também varia (ou avaria :D) e vou escolhendo diferentes bandas sonoras que acompanham o que por aqui vai no interior. Por outro lado, também me dou conta que em determinados momentos procuro música para despertar uma determinada disposição - motivação, foco, determinação, coragem - e por esse motivo adorei saber sobre a crença apresentada por Platão e a de Aristóteles.
Depois de ler este belo artigo vou ouvir a tua música com outros ouvidos e sem dúvida com mais atenção.
You rock! ��
Obrigado Carlota. Estado de espírito avariado é sempre bom! :-)
EliminarForça!
Adorei o post querido Zé Paulo!! Super interessante !!!
ResponderEliminarGrato pelo comentário Andrea. Assim como a música pinta paisagens, também as paisagens influenciam a música. E o Alentejo tem paisagens lindas! Beijinhos.
EliminarZé Paulo,
ResponderEliminarMuito obrigada pela partilha da história da música.
Não sei ao certo com qual ideia me identifico mais, se com a analise de Platão se com a de Aristótele, talvez pelo meu estado de espírito e de vivência não ser sempre igual, consigo compreender e sentir ambas as análises.
Platão acha que a música influencia o comportamento, já aristoteles tinha uma visão semelhante mas mais abstracta, mas ambas são emocionais
Parece-me que a ideia do Hanslick, seja mais racional e não tão emocional, e faz-me todo o sentido essa tua identificação, pois o teu olhar sobre a música é muito mais cirúrgico.
Acho que quem não tem conhecimento técnico sobre a música, rege-se pelo lado emocional.
Agora vou ouvir a Nostalgia e salvar na minha play list :)
Obrigada
Rita
Obrigado Rita pela reflexão. Provavelmente tens razão. Quem está mais por dentro de um assunto (música, neste caso) tem forçosamente um olhar diferente.
EliminarViajar pela música e expandir a consciência.
ResponderEliminarObrigada pelo seu contributo nobre EgoMentis.
Um grande bem haja😊
Obrigado Barreto, que bom vê-la por aqui! Beijinhos.
EliminarGostei de saber que a música tem sido objeto de tanta reflexão e análise. Seja lá de que maneira for ela desencadeia a todos nós diferentes sensações. Gostei muito da música no final. Vou seguir no Youtube ;) Parabéns!
ResponderEliminarObrigado Cláudia. Um beijinho.
EliminarQuerido Zé Paulo, que tema tão precioso. E que exposição histórica e analítica tão cultural. Sou tua fã!
ResponderEliminarA tua pergunta remete para respostas ramificadas, ou seja, para mim, música é mais emocional, é espelho, é identificação, é estados de alma, é dança, é letra. Por outro lado, passando pelas fases de infância, adolescência e idade adulta que somos socializados pelo nosso meio ambiente e familiar, pela música que os nossos pais, ou amigos também ouviam, o que gera ou não memórias do passado.
Para mim, a música é mágica, vem de um dom entre razão (conhecimento e formação musical) e emoção, porque parte de ti, está lá, é uma entrega!
Música é também sintonia, identificação e união. Sintonia estando atenta a estados subtis de consciência aparece aquela música com uma mensagem para a minha alma; identificação porque espelha a forma como estamos e somos formados ao longo da vida; e união porque acolhe, junta, agrega seres humanos criando egrégoras com uma só voz.
Outra coisa, as minhas coreografias foram todas feitas com a tua música, que se tornou minha! Por isso, também é posse e traz à tona o nosso sorriso e a dança dos nossos corpos!
Um beijinho e obrigada por nos "dares música"! 🤭🎹🎧
Gostei! Este comentário tem muito que se lhe diga, menina! Creio que concordo com quase tudo o que propões. E claro, fico bastante lisonjeado por te ter como minha fã 🤭. Beijinhos e até já.
EliminarQue bonito, Cláudia! :) Sou fã do Zé Paulo e também sou tua! <3
Eliminar"Padrinho" 🥰😁
EliminarAi Marta...deixas-me sem jeito! Na verdade, eu também sou tua fã! Tens em ti um pedacinho de mim 💖 e eu um teu!
EliminarObrigada pela partilha da história da música. Foi muito interessante e esclarecedor.
ResponderEliminarA música escolhida é magnifica. Consegui viajar com ela.
Para mim viver sem música é como viver fechado numa cela. A música liberta-nos, solta a nossa mente criando energia, provocando emoções. Não é por acaso que cada música que ouvimos nos remetem a um momento (um sitio, uma pessoa ou um acontecimento).
Mesmo quando estou triste, ao colocar uma musica, a tristeza desvanece-se. Por vezes apenas é necessário cantar e lá vai ela.
Ao ouvir esta musica do Zé Paulo pela primeira vez, viajei para um momento muito especial da minha vida. Deixo-me nostálgica mas no bom sentido. Obrigada pela partilha.